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Gramado e a imigração italiana: a história por trás das fotos à moda antiga

Antes de ser a cidade das hortênsias, Gramado foi uma colônia italiana chamada Linha Nova. E o retrato de estúdio, feito com a melhor roupa da casa, foi a única imagem que muitas dessas famílias deixaram.

Gramado e a imigração italiana: a história por trás das fotos à moda antiga

Quem chega a Gramado hoje encontra fachadas enxaimel, chocolate e hortênsia — uma cidade que se apresenta ao mundo com sotaque alemão. Mas o nome do município nasceu num lugar chamado Linha Nova, e Linha Nova era uma colônia italiana.

Essa é a parte da história que quase não cabe no cartão-postal. Ela explica os sobrenomes do interior, as cantinas do Vale — e, o que nos interessa aqui, explica também por que existe uma tradição de retrato de estúdio na Serra Gaúcha, que é exatamente o que se refaz quando alguém pede uma foto à moda antiga.

1875: a Itália desembarca no Rio Grande do Sul

O marco da imigração italiana no Brasil é 1875. Naquele ano começaram a chegar as primeiras famílias às colônias que o governo abriu no nordeste do Rio Grande do Sul: Conde d'Eu (hoje Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Campo dos Bugres (Caxias do Sul).1

Vinham em sua maioria do Vêneto, da Lombardia e do Trentino — regiões que, na Itália recém-unificada, atravessavam uma crise agrária severa. O que os esperava aqui era mato fechado, lotes medidos em linha reta e a obrigação de derrubar a floresta antes de plantar qualquer coisa.

No mesmo 1875, a região onde hoje é Gramado recebia seus primeiros ocupantes conhecidos: José Manoel Corrêa e Tristão José Francisco de Oliveira, de ascendência luso-açoriana, que se estabeleceram ali com suas famílias.2

A cidade, portanto, não começa italiana. Ela começa a ficar italiana dez anos depois.

1885: a Linha Nova, onde Gramado de fato começou

Passada a primeira década, os lotes das colônias originais já não bastavam. Os filhos daqueles imigrantes começaram a se espalhar pelas terras vizinhas à procura de espaço — e parte deles subiu na direção do que hoje é Gramado.

O marco zero é 1885, na Linha Nova, com a chegada da família Boff.3

Não é nota de rodapé na história do município: é o endereço de origem dele. A cronologia oficial mostra por quê.

Ano O que aconteceu
até 1904 A região pertencia a Taquara do Mundo Novo, a atual Taquara
19/04/1904 O território vira o 3º Distrito de Taquara, com sede na Linha Nova
17/01/1913 O Ato Municipal nº 139 muda o nome do distrito de Linha Nova para Gramado
15/12/1954 A Lei Estadual nº 2.522 separa Gramado de Taquara e o eleva a município

Alemães e italianos no mesmo território

Nos últimos anos do século XIX chegaram os teuto-brasileiros — filhos e netos dos imigrantes alemães que já estavam no Rio Grande do Sul havia meia geração. Trouxeram a arquitetura, a marcenaria e boa parte da estética que o turismo transformou em identidade visual da cidade.

Gramado se formou com as duas heranças ao mesmo tempo, e com várias outras junto: antes de todos, os povos indígenas; depois luso-brasileiros, afro-brasileiros escravizados, açorianos; e mais tarde poloneses, austríacos, sírio-libaneses, espanhóis.

A divisão que ficou é quase geográfica. O centro conta a história alemã. O interior — Linha Nova, Linha Bella, Linha 28, o Vale do Quilombo — conta a italiana, com cantinas, parreirais e capelas ainda de pé.

O trem de 1921 e a chegada do turismo

Em 1921 a ferrovia chegou a Gramado, no ramal que subia a serra a partir de Taquara.6 Foi o que ligou a colônia ao resto do estado sem depender de estrada de chão.

O efeito foi duplo. A produção do interior passou a escoar; e Porto Alegre descobriu que existia, a poucas horas de trem, um lugar fresco no verão. A vocação de estância de veraneio — que viraria o turismo de hoje — começa aí.

O retrato de estúdio: a única imagem que essas famílias deixaram

Aqui a história encontra a fotografia.

Homem de terno risca de giz e gravata-borboleta segura um porta-retratos antigo enquanto fala num telefone de parede de manivela
O retrato emoldurado na parede da sala era, para muitas famílias de colonos, o único registro visual que existia delas.Acervo Recordar Fotos à Moda Antiga

Uma família de colonos do fim do século XIX não tinha registro visual de si mesma. Não havia câmera em casa, não havia álbum. A única imagem que muitas dessas famílias produziram na vida inteira foi um retrato de estúdio — feito uma vez, com todo mundo reunido, e depois emoldurado na parede.

E os estúdios existiam porque vieram junto: boa parte dos primeiros fotógrafos estabelecidos na região era de imigrantes italianos que trouxeram o ofício na bagagem ou o aprenderam aqui.7

O caso mais conhecido é o de Giacomo Geremia. Nascido em 1880 em San Martino di Lupari, província de Pádua, abriu por volta de 1905 um pequeno estúdio em Antônio Prado e atendia também no interior, indo até as famílias. Em 1911 já estava em Caxias do Sul, onde fundou o Atelier Photographico Geremia, na Avenida Júlio de Castilhos. Especializou-se em retrato e foi o primeiro fotógrafo da cidade a usar luz artificial.8

O acervo do Studio Geremia — mais de oito mil negativos em vidro e em filme — foi adquirido pela prefeitura de Caxias do Sul em 2002 e está no Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.9 É um dos registros mais completos que existem da imigração italiana no Rio Grande do Sul, e é feito quase inteiramente de retratos: casais no dia do casamento, famílias inteiras posadas, crianças de primeira comunhão, jovens antes de partir para o serviço militar.

Por que a roupa e a pose importavam tanto

Olhando essas fotos hoje, chama atenção a rigidez. Ninguém sorri. Todos estão impecavelmente vestidos. As mãos estão paradas, os ombros retos, o olhar fixo na lente.

Havia uma razão técnica: o tempo de exposição era longo, e mexer borrava a imagem. Mas havia uma razão maior, e ela não é técnica.

Por isso ninguém posava com a roupa de trabalho. Vestia-se a melhor roupa que se tinha: a de domingo e de casamento, muitas vezes a única roupa boa da casa. A pose séria não era falta de alegria — era formalidade, a mesma com que se assina um documento.

Mulher com chapéu de palha de aba larga e blusa de renda clara segura um cachorro pequeno, em cenário com poltrona e xícara de porcelana
Chapéu, renda e cenário: o figurino não é fantasia, é a reconstrução do que se vestia para ser fotografado.Acervo Recordar Fotos à Moda Antiga

Onde ver essa história em Gramado hoje

Se você está na cidade e quer sair do circuito central, dois caminhos levam direto a essa origem:

  • Linha Bella — a estrada que atravessa as comunidades italianas do interior de Gramado, passando pelo Marco Zero na Linha Nova. Mais de vinte famílias abrem suas propriedades a visitantes, entre cantinas, vinícolas e produção colonial.10
  • Caminhos de Caravaggio — as rotas de peregrinação que ligam os dois santuários de Nossa Senhora de Caravaggio, em Canela e em Farroupilha: cerca de 200 km em dez trechos, passando por Canela, Gramado, Nova Petrópolis, Caxias do Sul e Farroupilha.11

Em 2025 a imigração italiana no Brasil completou 150 anos, e Gramado ergueu homenagens à data — o que trouxe boa parte dessa história de volta à conversa pública.12

Refazer o retrato

É daí que vem o que fazemos no estúdio.

Uma foto à moda antiga não é uma foto com filtro sépia. É a reconstrução de um gesto: vestir o figurino da época, assumir a pose formal, olhar para a lente do jeito que se olhava quando a fotografia era um acontecimento — e sair de lá com uma imagem que se parece com as que estão penduradas na parede da casa da bisavó.

Para quem tem origem italiana na Serra, e são muitos, o efeito é bem específico. A foto não fica parecida com uma foto antiga genérica. Fica parecida com aquela foto: a do casal de colonos, tirada uma vez na vida, na melhor roupa que tinham.

E essa, no fim, é a razão de o retrato de época continuar fazendo sentido 140 anos depois da chegada das primeiras famílias à Linha Nova. Não é nostalgia de época nenhuma. É a continuação de um hábito que aquelas famílias inventaram por necessidade: parar tudo, reunir todo mundo, e registrar quem se é agora — para quem vier depois.

Perguntas frequentes

Gramado foi colonizada por alemães ou por italianos?
Pelos dois, em momentos diferentes. Os primeiros ocupantes conhecidos, em 1875, eram luso-açorianos; os italianos chegaram em 1885, pela Linha Nova; e os teuto-brasileiros nos últimos anos do século XIX. O centro guarda a herança alemã, e o interior, a italiana.
O que é a Linha Nova de Gramado?
É a comunidade onde a colonização italiana do município começou, em 1885. Foi sede do 3º Distrito de Taquara a partir de 1904, e em 1913 esse distrito passou a se chamar Gramado.
Quando Gramado virou município?
Em 15 de dezembro de 1954, pela Lei Estadual nº 2.522, que separou o distrito de Gramado do município de Taquara.
Por que ninguém sorri nas fotos antigas?
Por duas razões. O tempo de exposição era longo e mexer borrava a imagem; e o retrato era tratado como documento — se fazia uma vez, com a melhor roupa da casa, e a expressão era de formalidade, não de tristeza.
O que é uma foto à moda antiga?
É um ensaio fotográfico em que se veste figurino de época e se posa em cenário montado, reproduzindo o retrato de estúdio que as famílias faziam no fim do século XIX e começo do XX. Em nossos estúdios de Gramado e Canela o figurino está incluso.

Referências

  1. Imigração italiana no Rio Grande do Sul — colônias Conde d'Eu, Dona Isabel e Campo dos Bugres, a partir de 1875. Wikipédia; ver também 140 anos da imigração italiana no RS (UCS, e-book).
  2. Primeiros ocupantes da região de Gramado, por volta de 1875. Primeiros habitantes de Gramado.
  3. Marco zero da colonização italiana em Gramado: 1885, na Linha Nova, com a família Boff. Atrativo leva turistas às comunidades italianas onde a cidade começou.
  4. 3º Distrito de Taquara com sede na Linha Nova (19/04/1904) e Ato Municipal nº 139, de 17/01/1913, que renomeou o distrito para Gramado. Além dos 65: uma breve história do 5º Distrito de Taquara do Mundo Novo.
  5. Lei Estadual nº 2.522, de 15/12/1954; plebiscito de 1953 e posse do primeiro prefeito em 1955. Gramado completa 70 anos: relembre fatos históricos.
  6. Chegada da ferrovia a Gramado em 1921. Gramado — Wikipedia.
  7. Sobre os primeiros fotógrafos da região, em boa parte imigrantes italianos. Curta história da Fotografia em Caxias do Sul.
  8. Giacomo Geremia (San Martino di Lupari, 1880 — Caxias do Sul, 1966); ateliê em Antônio Prado por volta de 1905 e Atelier Photographico Geremia em Caxias do Sul a partir de 1911. Dicionário Histórico-Biográfico da Fotografia (LABHOI/UFF); Wikipédia.
  9. Acervo Studio Geremia: mais de oito mil negativos em vidro e filme, adquiridos pela municipalidade em 2002. Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami — Acervo Studio Geremia.
  10. Roteiro Linha Bella, no interior de Gramado. Linha Bella Gramado.
  11. Caminhos de Caravaggio: cerca de 200 km em dez trechos, por cinco municípios. Visit Gramado — Caminhos de Caravaggio.
  12. 150 anos da imigração italiana no Brasil, em 2025. Gramado edifica homenagem.
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